Malbec: a origem do sucesso

Existem algumas variedades de uva que nunca tiveram grande reconhecimento na sua terra natal, até que desembarcaram no Novo Mundo e finalmente, ganharam seus merecidos fãs. Dentre elas, sem dúvida a mais icônica para nós brasileiros é a Malbec. A cepa nasceu em Cahors, na França, e descobriu seu terroir prometido em Mendoza, na Argentina. É uma das uvas favoritas daquelas pessoas que gostam de vinhos encorpados e de grande personalidade.

Nascida às margens do rio Lot, em Cahors, desde os tempos mais primórdios fora cultivada em toda a região sudoeste da França, incluindo Bordeaux. Por lá, a uva se expressa com toques mais suaves e maduros, e era utilizada basicamente para compor cortes, até do típico estilo bordalês, junto a Merlot e Cabernet Sauvignon. A cepa era encontrada nas partes periféricas dessa região, como em Bourg, Blaye e Entre-deux-Mers, onde era conhecida por outros nomes: Côt, Côt Noir, Auxerrois e Pressac. Hoje, após o sucesso argentino, é mais comum que os próprios produtores franceses usem o nome internacional, Malbec.

A prosperidade só durou até meados do século XIX, período em que a histórica praga da filoxera dizimou a viticultura na Europa e consequentemente grande parte das vinhas de Malbec cultivadas na França. Já na metade do século XX, um rigoroso inverno destruiu grande parte das vinhas de Cahors. Posteriormente, durante a reconstrução muitos produtores se esqueceram dessa variedade e buscaram uvas mais promissoras e populares para a época. A cepa não ficou extinta, porém reduziu-se drasticamente o número de produtores que se dedicavam ao seu cultivo.

 

Atualmente, Cahors é a única denominação de origem francesa que possui regulação própria para varietais Malbec. Todos os malbecs dessa região precisam conter um mínimo de 70% da variedade, e as vinhas só podem ser cultivadas nas encostas do rio Garonne, cujos vinhos apresentam um bom potencial de envelhecimento.

Quando a Malbec conquistou os argentinos e o mundo…

Os primeiros registros da Malbec na Argentina apontam para o ano de 1850, época em que o então presidente, Domingos Faustino contratou o engenheiro agrônomo Michel A. Pouget para importar e implantar mudas das principais variedades de Bordeaux em solo argentino. O projeto deu tão certo, que o governo investiu alto na experiência, entregando-lhe um curso de Viticultura na faculdade de agronomia em Mendoza.

O deserto de Mendoza possui condições naturais muito favoráveis para a prosperidade dessa e outras uvas. A luz do sol intensa e abundante dos vinhedos de altitude permite à vinha amadurecer totalmente, produzindo uvas com intensidade de cor e sabor muito diferente daquelas vinhas úmidas cultivadas na França.

Descobriu-se então, que a Malbec de Mendoza tinha uma personalidade distinta. Dependendo das sub regiões onde era cultivada, o resultado poderia ser ainda melhor. O cultivo em regiões de grande altitude (Lujan de Cuyo, Salta, etc) possibilitava uma colheita de uvas com maior acidez e aromas mais proeminentes; enquanto em regiões mais frias (próximo ao Rio Negro e ao sul da Patagônia) resultava em uvas mais doces e elegantes. Soma-se a isso, a irrigação natural da água do degelo Andino, ideal para alimentar as vinhas com minerais e outros nutrientes, ao longo das estações mais quentes.

malbec

 

Tantas qualidades chamaram a atenção dos produtores locais, que resolveram investir integralmente nessa variedade. Lá a Malbec não foi escolhida como emblema pela sua produtividade, muito pelo contrário, a uva com maior rendimento na região era a Bonarda, que aos poucos foi sendo substituída pela Malbec pelos ótimos e consistentes resultados que ela apresentava, apesar de um rendimento bem menor.

Pouco após, chegaram os primeiros investidores internacionais, na sua maioria, grandes produtores europeus que buscavam emplacar uma “filial” das suas vinícolas em solo Argentino. Assim surgiram parcerias promissoras, como Chateau Lafite-Rotschild e Nicolas Zapata, Chateau Cheval Blanc e Terrazas de los Andes, sem contar os desbravadores experientes da enologia, como Michel Rolland (Yacochuya de Salta) e os projetos Clos de los Siete, perto de Vista Flores. Esta invasão só beneficiou a viticultura argentina, modernizando a produção e aumentando ainda mais a qualidade. Não é a toa que hoje conseguimos beber desde malbecs baratos mas de ótima qualidade, quanto vinhos que se destacam por sua complexidade e elegância, em pé de igualdade com muitos renomados vinhos do velho mundo.

Aqui no Brasil é notória a fama da uva, e pode-se dizer que também é uma de nossas preferidas. O caráter vegetal, o corpo e a potência que lhe é dada no estilo argentino de viticultura, deixam seus vinhos perfeitos para acompanhar todo tipo de carne e pratos de massas com molhos pesados e encorpados. Algo que nós adoramos.

Atualmente, os argentinos são de longe os principais produtores da uva. Eles abraçaram a causa e fizeram dela seu ícone, a ponto de celebrarem o Dia Mundial da Malbec, realizado sempre no dia 17 de abril. Uma grande jogada de marketing, mas que mostra que, em se tratando de Malbec, eles não estão de brincadeira.

Mauricio Szapiro, sommelier